8/03/2022

obra prima

 Entre surtos, suspiros e sonhos, 

vivo meu tempo num impulso louco, 

não fujo de embates calmos ou medonhos, 

tenho muita sorte, mas juízo pouco, 

constantemente a vida me desmonta 

com desafios que deixam morta, 

me faço forte para seguir meio tonta, 

por que comigo mesmo, ninguém se importa,

Depois de uma taça ou mesmo uma garrafa,

vomito meus monstros, caio num sono, 

mas antes tranco a porta.






procuro-me

 Perdida entre responsabilidades em demasiado, 

trabalhos e relatórios atrasados,

esqueço-me de me olhar, de me amar, de me entender,

de me cuidar, de me surpreender...

Fico indiferentes às minhas dores, minhas necessidades, 

meus temores em troca de pequenas benesses 

que nem me proporcionam tantas felicidades.

E quando me dou conta do descaso

me busco, me resgato, com tanta voracidade

que não vejo a hora de me encontrar,

pois de mim, tenho saudade...

Ai, então, faço uma festa para mim,

vestido novo, vinho bom, música alta

e tiros de festim.






seja o que flor, floreço.

 Se a noite for de sonhos, amanheço;

se a manhã for com musicas, entardeço:

se a tarde for de passeios, anoiteço;

se o dia for nebuloso, entristeço;

se o sorriso for para mim, agradeço;

se a vida for com paixão, eu verão;

se for igual todo ano, eu outono;

se a vida for um inferno, eu inverno;

se a vida for uma gerra, eu primavera;

se tudo for alegria, eu ventania;

se nada está dando certo; eu deserto;

se a noticia me afeta, eu poeta;

se a amizade é falsa, eu  sou valsa;

se meu corpo está quente, eu doente;

se o beijo está frio, não arrepio;

mão adianta me dar conselhos, eu tenho espelho.






8/02/2022

mulher no espelho

A mulher no espelho

Abro as portas do armário

e diante de tantas roupas

sei que nenhuma me veste

De tanto experimentar

encontro um vestido que preste

Tipo saco, listado, sem curvas, 

Onde eu caibo, espremida, 

tipo carne embutida, 

Hororosa, gorda, redonda, rotunda

Fico triste, deprimida

Tenho uma melancia na barriga

E me falta músculos na bunda,

estou feia,m grisalha,  esfomeada, 

Menopausa, perda de libido,

sem auto-estima, sem sentidos,

Hormônios, poli vitamínicos

de que adianta ter tantos vestidos?

beijos negados

BEIJOS NEGADOS

Era tanta a obediência

e um caminho a ser seguido

que nada era elegante

Tudo era proibido...

A primeira filha

Das avós não teve colo

Nem afagos da família

De parentes nenhum elogio

Todo ano um irmão novo

Para dormir juntos no frio

Se quer ganhou um brinquedo

De plástico, pano ou porcelana

Sempre obedecendo com medo

Sua boneca foi sua mana.

Cresceu sem nenhum sonho

Apenas vendo passar a infância

Quando se tornou adolescente

Que percebeu a distância

Que havia entre o passado e o presente

Então, resolveu naquele momento

Fazer melhor seu futuro

Trabalhava e estudava ao mesmo tempo

Para recuperar com juros

Sequelas irreversíveis,

nunca sanadas,

Cada vez mais visíveis.

 

volupia

 

perdidos

Lembro-me de ter sorvido

Teu hálito, teu lábio, tua boca,

Tua saliva, tua sofreguidão

Sinto de novo a mesma magia

A mesma brisa, a mesma fantasia,

Os mesmos odores , a mesma tentação,

Os mesmo calafrios na pele que arrepia.

 

Em cada copo de cerveja

espumante e envolvente

Em cada sopro de vento

Quando frio ou quando quente,

No copo de remédio amargo,

Que engasga mas alivia,

Na criança que corre contente

E derrama pela casa, só alegria.

 

Sinto tua respiração

aquecendo o meu ouvido

Teu coração bem junto ao meu,

Sua voz suave sussurrando,

só doçura...

E eu toda doce,

me entregando ,

só ternura...

 

farnhente

 

Copo vazio

Calor... calor... calor.

Céu enegrecido,

vento abafado!

Chuvas torrenciais...

Cachorro se coçando na

perna do sofá,

depois sobe, deita

e rosna se espreguiçando...

Na televisão um programa sensacionalista...

uma vítima de soterramento...

e fofocas da próxima revista...

uma térmica com água quente...

uma cuia de mão em mão...

uma galocha nos pés...

milho verde no fogão...

cheiro de férias caseiras...

de culinária experimental...

chutney, conservas, licores...

salgado, doce ornamental...

Eu fazendo meus crochês de mil cores...

e o marido de avental...

Pela janela o cheiro de terra molhada...

a brisa fresca que a chuva espalhou...

não troco este “farnhente” por nada! 

aguardo as próximas ferias...

e vou passar  onde estou.

 

metapoema

 

metapoema

Quando engravido de um poema

Fico visualizando seu jeito

calculando suas medidas

imaginando seu efeito

planejando seu nascimento

se ele nasce ... que delícia!

Se será sagrado, profano, romântico

Ou impregnado de malícia...

Quando, finalmente, é parido

eu o crítico, o julgo, o censuro

deixo-o amadurar no obscuro,

pois gostaria que ele fosse querido

e já registrado  com sucesso

E que no colo de todos

Imediatamente, tivesse acesso

Fosse eleito e aceito,

Sem ressalvas, nem preconceitos.

 

Quem sou?

 

Quem serei?

Será que algum dia, alguém vai me decifrar?

Se nem eu, estudiosa de mim mesma, sei.

Sou simples, chata, chorona e feliz...

Jô, mãe, dona de casa, professora,

super organizada, perfeccionista, prática,

autêntica, solidária e  honesta.

Mas é possível?

Gosto de bijuterias, camisetas, jeans,

vestidos estampadas, chinelos havaianas,

unhas lilás, sol de verão, piscina, computador,

animais, sorvetes, cervejas, estrogonofe,

pizza, caminhadas, Orkut, blogs,

namorar, dormir e comer...

Ah!, também tenho minhas preguiças...

Então por hoje chega.

 

Lucidez

 Abro, cansada, os meus olhos

Na hipotética e tênue lucidez

Sinto-me hipnotizada e impotente

Lesada diante de tanta pequenez

            Onde estão meus olhos de jabuticaba?

            Onde perdi a maciez de minha pele?

            Onde consegui olheiras tão escuras?

            E meu sorriso já não tem o doce mel.

Por que abandonei o livro de cabeceira?

Por que anseio destruir o personagem?

Por que vislumbro ser a justiceira?

Se não me resta mais nenhuma coragem.

            O meu corpo seca visivelmente

            As minhas palavras ferem como punhais

            Secam minha alma, espírito e mente

            Que temo não recuperá-los nunca mais.

Doem-me as entranhas e a consciência

Doem-me a covardia de testemunhar,

Por que não levanto e tomo ciência?

Por que me permito aniquilar?

mulher melhor

mulher que quer crescer

estudar, trabalhar e vencer!

mulher que quer amor

respeito, carinho e valor!

mulher que quer um lar

móveis, teto e um par!

mulher que quer família

esposo, filhos e filha!!

mulher que quer estabilidade

sendo reconhecida na sociedade!

mulher que quer justiça

e que não pode ter preguiça!

mulher que usa o coração

para equilibrar sua razão!

mulher que usa a beleza

para dar à vida, leveza!

mulher que chora escondida

para não ser reduzida!

mulher que ama incondicional

que, às vezes, até se faz mal!

mulher que tudo é capaz

para os seus viverem em paz

Deboche

 Adoro escrever

Quando estou triste, apaixonada,

embriagada, infeliz, abandonada,

cercada, endividada, inspirada.

Não sei como, não sei de onde,

mas quando me vem vontade de escrever,

eu fico exageradamente Nua.

Escrevo tudo o que me vem na veia!

Sem vergonha e sem censura

Sou uma pessoa, feliz, ousada, realizada.

abusada, sem frescura

Corajosa e debochada.

agosto

 Era uma manhã de domingo acinzentado

Quando levantei tarde,

Abri a janela do meu quarto

E senti me tocar  um ar abafado

No céu encoberto pela fumaça das queimadas

Do mês de agosto, o sol não se mostrava,

Estava sob a atmosfera poluída.

Entendi que teríamos um dia calorento,

Sem sol, sem chuvas, sem vento

Mês de agosto é diferenciado,

As floradas trazem as alergias e as rinites,

a falta de chuva a terra resseca,

 escassez de águas nas fontes,

 baixa umidade do ar.

As temperaturas destemperadas,

Com dias muito quentes,

Especialmente para mim.

A noite um frescor perfumado

pelas flores dos pomares

e algumas espécies do jardim.

 

 

Esperança

Levante,

Olhe para o futuro

e avante,

Não permaneça prostrada

Em atitude de submissão

Olha em volta

Tudo vive,

Tudo se move,

Então, não se deixe morrer

Há outros dias,

Outros sonhos,

Outras poesias

Como existem fatos ruins

É fato que haverá os bons,

Seque o pranto

Adoce sua boca

Brilhe seu olhar

há tantos sonhos adormecidos,

Acorde para sonhar!

Instantes

Instantes

Quando com sede chegamos na fonte de águas limpas e frescas;

Quando cansados alcançamos uma árvore com sombra frondosa;

Quando com fome pegamos a fruta madura no galho mais alto;

Quando caminhando e ganhamos uma carona, de carro, de carroça ou bicicleta;

Quando a chuva cai torrencialmente fria e pesada e alguém nos oferece um lado do guarda-chuva;

Quando choramos pranteando e alguém nos oferece o ombro em silêncio;

Quando nós ferimos com espinhos e alguém nos oferece uma flor.

Tempo, tempo

"Há tempo para tudo"

É apenas uma questão de tempo.

Tempo de semear...

tempo para com "templar" a germinação...

Tempo para se olhar o horizonte

para saber se o tempo chove na época certa,

e se, haverá um tempo certo para se colher.

Assim como há o tempo de refletir,

de calar, de ouvir, de partilhar,

de reconhecer, de perdoar...

O tempo, já diziam nossos pais, tudo cura.

Padre Antonio Vieira, lá pelos meados de 1600

deixou registrado que:

"...atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera!

Um abraço apressado, gente, enquanto há tempo!

afinal o tempo ruge!

 

Colapso

Final de fevereiro, 

seca no sul, 

decretos feitos no impulso, 

filas nas portas dos hospitais, 

doentes sufocando, 

parentes gritando, 

não há vagas, 

não há respiradores, 

não há presidente, 

não há  ministro, 

não há governadores, 

não há mais controle, 

o Brasil desceu toda ladeira,

o vírus pegou geral, 

quem tem três beiras,  

quem não tem nenhuma.

Estamos assim faz um ano, 

atentos, ansiosos 

esperando uma solução 

que não se aproxima, 

as autoridades negacionistas, 

assistindo a chacina, 

fazendo maracutaias, 

criticando a medicina, 

atrasando, dificultando

a chegada da vacina,

Em pleno século XXI estamos refém

de politicos que se blindam, 

que depois de eleitos 

não lembram mais de ninguém.

25/02/21

adeus Popó

 Hoje o dia enlutado amanheceu

Após uma noite fria e silenciosa

é que ontem, no final da tarde,

o Popó, nosso mascote, morreu

e a vida malvada e capciosa

levou-o de uma forma tão covarde.

Choramos todos...

amigos, filhos, mami e papi...

Popó será insubstituível

Ele era nossa lambança

nosso “bebeinho” incrível

morreu brincando com as crianças

mal sabia, dos riscos

que a rua oferecia

saltitando, feliz,

atrás dos outros ele corria.

Dali a pouco,

passou um carro voando,

então ele, o POPÓ, morria.

Levando embora

um dos motivos de nossa alegria.

Seja feliz Popó,

Tenha certeza:

você era muito inteligente,

fiel, amigos, carinhoso

Tudo em você era diferente

Você não era um bicho

Você era um ser-quase-gente

Vamos lembrar de você

No Orkut, nos blogs, eternamente

espero que tenhamos retribuído

a felicidade que você nos proporcionou.

Mas me diga:

O que vou fazer com a ração que sobrou?

O xampoo que voce não usou?

Seu talco que no banheiro ficou?

A sua ausência que aqui em casa se instalou?

A mancha do seu sangue que o asfalto marcou?

espanto

O tempo todo corremos,
enfrentamos filas onde quer que vamos:
no trânsito, no banco, no super mercado,
na farmácia, no elevador apertado
no Posto de saúde, no orelhão.
Dormimos pouco, comemos mal,
não temos tempo para ler jornal,
então nos bastamos com o "Nacional",
manipulado, dourado, sensacionalista.
Lá tem o "Jabor", que dá seu ponto de vista.


poderia

 

Quantos sonhos eu sonhei?

Até as contas eu perdi.

Poderia ter sido jornalista,

Também quis ser doutora

mas foi sendo diarista

que consegui ser professora

Quis tanto ser feliz

Ter uma família normal

Os filhos que sempre quis

Criados pelo casal

mas há um destino traçado

que não sabemos o final

A vida é um jogo de lego

Que vem sem o passo a passo

O que acaricia nosso ego

Escapa de nossos braços

E foi com ensaios e erros

Sem estágios, sem chances

Que às pressas, no desespero

A vida passa  num relance...

falas de orgulho

 

Hoje pela manhã precisei dos serviços de mecânica especializada

em carros com câmbio automático,

para tal, procurei uma renomada empresa prestadora destes serviços na cidade.

Um mecânico experiente, atencioso, coroa e muito charmoso sugeriu que fôssemos rodar com meu carro para identificar alguns problemas, quando ele me inqueriu:

----- Como posso chamá-la, senhora?

----- Profê Jô, professora JÔ... - respondi empoderada...

Depois pensei comigo:

"E minha melhor definição, sou há 43 anos professora, mais que mãe, mais que avó, serei sempre professora."

Conclui meu pensamento e meus olhos marejaram.

Profissão x profecia

Formei-me para servir

E a missão é para ser vil

Me convocam para lutar

E a trincheira me faz enlutar

Me convencem a ser guerreira

E logo viro baderneira

Me gritam para ser aguerrida

Mas no confronto sou ferida

Vou dar aulas numa praça

E lá caio em desgraça

Quando cumpro o calendário

Ninguém me xinga de otário

Basta que entre na luta

Me chamam filha da puta

Se vou todo dia na escola

E meu salário não decola

Me junto a categoria

Nunca fui de covardia.

Lutar uma vida inteira

E não salvar minha carreira

Sempre lembrada em campanha

Mas quando se revela, apanha.

sempre na luta

 

São tempos complicados

O mundo está doente

Com várias comorbidades

Morrendo muita gente

Abalando a sociedade

Nas redes sociais

Uma vitrine de obituários

Que se confirmam a noite

Em todos os noticiários

Temos um imbecil no comando

Cercado de asseclas vassalos

Não acreditam na ciência

São asnos, são cavalos

Blindados pela presidência.

Nas UPAS dezenas de ambulâncias

Com pacientes sobre as macas

Esperando sair o carro funerário

abrindo outra vaga de UTI

e no cemitério outra vala comum.

tempos pesados

Os dias se arrastam sorumbáticos

As dores do meu corpo aumentando exponencialmente

O confinamento prolongado  é problemático

As pessoas todas só se queixando

Meus pés estão muito pesados

Tenho pedras invisíveis penduradas

Os tendões muito inchados

Os meniscos dilacerados

Reflexos de uma quarentena enclausurada

Enquanto realizo trabalhos em modo remoto

por longas horas fico imobilizada

Não consigo me ver em foto

Pois dia a dia minha imagem piora

As rugas me saltam aos olhos,

Os cabelos pratas me apavoram

Os boletos são esquecidos e

A aposentadoria que não decola.

doce lar

Nossa casa é o melhor lugar para viver,

nela armazenamos nossa história

fotos, cartas, agendas, documentos

tudo que guarda memória

nela estamos seguros, guardados,

ali abrigamos sonhos, segredos,

anseios, esperanças, desgostos, saudades,  medos

é ali que somos nós mesmos, desnudos, impuros,  inteiros,

podemos também ser covardes

fracos, vingativos ou verdadeiros.

Ali, junto ao que temos e armazenamos

podemos ser politizados e otimistas

 filósofos, petralhas , alienados,

mas Deus me livre sermos bolsonaristas.

Avanços

 

No passado a mulher era do lar

Prendada, feita para parir

Os homens saiam para a lida

Para o trabalho, para as farras,

Para viagens, para a vida

Suas esposas em casa

Cercadas por mucamas

Dando a luz muitos meninos

Sendo objetivadas, na mesa, nas camas

Sem ter voz ativa, sem decidir

Apenas aceitar que mulheres

Eram nascidas para servir.

Foi nesta época que, de repente,

Encontraram uma diversão

Nos capítulos literários,

 Publicados diariamente em jornais,

Eram lidos, escondidos na ocasião.

Os autores escreviam em profusão

Divulgavam suas obras com prazer

Pois o jornal era o meio de comunicação

As mulheres tinham a leitura como lazer

Foi assim que a tradicional família

Formada pelo pai, mãe, filhos e filhas

Perceberam a importância

Da construção de escolas

Para ensinar a filharada a ler,

 aprender e jogar bola.

Foi assim que nasceram os leitores

Numa época que o conhecimento

Era privilegio de homens escritores.

Eu mesma

 

Eu, por mim

Passei a vida preocupada em ser aceita

Responsável, honesta, perfeita

Passei  por ela só olhando para a frente

Assinando livro ponto, livro ata, livro negro

Cumprindo horários, passando o dedo

Vivendo em câmera lenta,

Superando medos...

...e lá se foi o tempo

e agora é tempo para me reinventar,

tempo de reaprender a ser eu mesma,

de fisioterapias e infiltração

ser leve, dançar, dar risadas

bem alto em bom tom

apesar das dores da artrite,

das dores crônicas, da voz rouca 

da insônia e da labirintite

quero ser um tanto louca.