7/05/2022

Tempos gordos

Os dias se arrastam sorumbáticos

As dores do meu corpo aumentando exponencialmente

O confinamento prolongado  é problemático

As pessoas todas só se queixando

Meus pés estão muito pesados

Tenho pedras invisíveis penduradas

Os tendões muito inchados

Os meniscos dilacerados

Reflexos de uma quarentena enclausurada

Enquanto realizo trabalhos em modo remoto

por longas horas fico imobilizada

Não consigo me ver em foto

Pois dia a dia minha imagem piora

As rugas me saltam aos olhos,

Os cabelos pratas me apavoram

Os boletos são esquecidos e

A aposentadoria que não decola.

velha do chapéu vermelho

 Não serei uma idosa tristonha

Não serei uma avó de coque na nuca

Serei cada vez mais sem vergonha

Jamais uma coroa caduca

Não serei uma senhora de óculos de grau

Não serei uma velha com roupas cafonas

Não frequentarei igrejas muito menos carnaval

Não calçarei chinelos ou vestirei pantalonas..

Usarei as mídias para ver filmes, músicas e dançar só

Terei cabelos curtos, crespos, soltos ao natural

Usarei lentes de contato para caminhar no sol

Vestirei regatas, jeans e  jaquetas coloridas.

Calçarei  botas, tênis e sandálias de salto alto.

Vestirei meu humor, meu deboche

pra curtir a vida

Quem vai criticar meu estilo de vida que tanto exalto?

Não serei uma aposentada saudosista,

amarga, desinformada e rabugenta

Serei sempre antenada, polêmica em movimentos, protestos e encrencas.


 

Nada do que foi será

 E se nada do que foi voltará a ser um dia?

Se perdurar por todo e sempre esta maldita pandemia?

Sem vida normal

Em casa, fingimos que estamos isolados,

A vida e feita de saudade do que vivíamos no passado

A vida do filme, da novela, da tv não tem verdades

A motivação pra cumprimos protocolos não encontra reciprocidades.

Estamos ansiosos, cansados e impacientes,

Em meio a tantos descasos, negacionistas e doentes.

Quem foi internado hoje e vai ser entubado depois,

Se terá leito de UTI ou se virará um número ou dois...

Como dói o amor

 Amadurecemos e paralelamente

nos tornamos endurecidos,

desmemoriados, insensíveis

às dores amorosas alheias

que por aí testemunhamos.

Achamos desnecessário, engraçado,

ver que os adolescentes sofrem,

choram até as faces ficarem rosas,

ter seu tempo desperdiçado,

esbravejam,  batem no peito

para espancar a dor teimosa,

pensando que isso dará jeito.

Esquecemos que também já sofremos

e buscamos do fundo de nossa experiência,

frases, provérbios, chavões

para impressionar, mostrar nossa inteligência,

para convencê-los  de que tudo isso

já tiramos de letra,

que não temos nem sequelas,

que temos muitas receitas.

“Uma pinoia! Uma balela!”

Só sabemos dizer frases feitas.

Testemunhar dor é o mesmo que voltar nela,

é  como voltar ao passado

através de uma janela.

Dor de amor sempre machuca

mas torna a vida mais singela!

SER MULHER

 Que ser mulher, que nada!

Hoje eu queria mesmo era ser paparicada!

Queria feriado para ficar em casa,

comer guloseimas e ficar enfastiada,

pegar uma folga para ficar deitada

vendo Ana Maria Braga,

copiando novas receitas

e mandando na empregada.

Marido trazendo café na cama,

E saindo de fininho

para não me deixar estressada.

Pijama de bolinha,

cama limpa e desarrumada.

Queria telefonar para as mulheres,

que no século passado,

fizeram um grande levante,

queimando caros sutiãs,

para hoje serem homenageadas,

lembradas nos problemas,

lembradas no consumismo,

lembradas na igualdade.

Igualdade na política,

igualdade no trabalho,

igualdade nos direitos.

Igualdade?  Igualdade é o caralho!

Hoje superamos, temos jornadas duplas

só perdemos nos salários!

Susto

Surpreendentemente nos avisam que seremos avós,

sem aviso prévio, sem preliminares, sem torpedo.

E um mundo de inquietações, perguntas,

angústia e medo, se abate sobre nós,

pobres imaturas vovós.

Todo aquele ritual de sentir enjoos, tonturas, insônia,

caminhar sem rumo, olhar sapatinhos, tip tops,

nos invade de sobressalto.

Um misto de alegrias, por imaginar um bebê saltitando pela casa,

e medo da saudade que teremos que nos ir acostumando,

porque ser avó solteira e  paterna é sinônimo de saudade,

de ciúmes, de distância.

Sem falar das vantagens da avó materna:

ela tem a cumplicidade da filha,

ela vai ao médico, vai à cama,

ela dá conselhos, exemplos, apoio e consolo,

ela trocará as primeiras fraldas,

ajudará na primeira mamada.

Às avós paternas sobram:

um fim de semana agendado,

a primeira comunhão, a festinha como convidada.

Ah, que dureza vai ser,

viver uma avó solteira e paterna.

passeio

 Quero que passeie suas mãos em meu coração

Que sua língua, atrevida, encontre o céu de minha boca

e brinque, e dance, e explore o paraíso deserto,

árido e desconhecido desta paixão.

Que o corpo seu transpire odores e suores

E se esparrame de amores sobre o meu.

Que nossas mentes, experimentem sensações,

Confusões, profusões, nunca antes vividas,

E que nem teorias freudianas dão explicações

Que fundam-se nossas  bocas, peles, umbigos,

Suores, pernas, cérebros,, corpos, em fim...

Que nossas razões se percam,

Que nossas identidades danem-se

E que seja bom para você,

Mas que, principalmente, seja bom para mim.

protocolos

Não boicote a quarentena

Está difícil, quase impossível,

mas precisamos suportar,

com esperança,  com novena,

Para  as vidas preservar.

Enquanto cientistas incansáveis,

estudam uma vacina

para a pandemia barrar.

Respeitemos os protocolos

pois um dia certamente vai passar,

e vamos saber que valeu a pena

vamos fazer festas, cerimônias

para  a vida comemorar

pois acreditar na ciência foi importante

e ajudou a nos salvar...

fica em casa

Fica em casa

É o que mais se ouve,

mais se escreve,

mais se lê,

mais se faz...

Fica em casa,

cuide do planeta,

das pessoas,

dos amigos,

dos seus pais

Lá fora existe maldade, contradições,

doenças, vírus, contaminações...

negacionistas e aglomerações

Fica em casa,

lave as mãos,

não toque os outros,

mantenha distância,

não troque afetos,

nem com filhos,

nem com netos.

Fica em casa

obedeça os protocolos

 apelos das autoridades,

das igrejas, do vaticano

dos políticos das cidades...

 

Se aventure

 Sem graça, sem gosto, sem glorias

Sem esperança, sem perspectivas,

sem motivação, sem alternativas,

deve ser a sensação de envelhecer sem se reinventar...

Mas a vida começa todas às vezes

que acordamos e abrimos as janelas,

não deixe a depressão  dar-lhe rasteiras

Isolamento, ou esculacho

Seja ligeira, não fique por baixo

Faça uma receita nova

Aprenda fazer crochê,

Aprenda fazer algo que nunca fez

Por falta de dinheiro ou de tempo

aprenda jogar,  canastra Jogue baralho,

Aprenda tocar um instrumento musical

Não se culpe por não ter trabalho

A vida começa a hora que sacudimos as cobertas

Ao acordar todas as manhãs

Não seja vitimista, resmunguenta

Dê bons exemplos, faça por prazer,

Para preservar a lucidez

Seja seu melhor em tudo o que

Se propõe realizar

Deixe um legado legal

Para que lembrem de você

Como pessoa positivista

e não pelas suas lamentações

peça para  escrever na lápide

de sua morada final a frase:

“ aqui jaz alguém que viveu

Tudo o que desejou em vida,

Amou, se curou e partiu plena”

Não deixe por menos.

Recompensas

Fui premiada vida a fora

Por crianças de todas as idades

Minha profissão me oportunizou

Ser educadora em várias cidades

Mas as crianças mais esperadas

São meus cinco netos queridos

Todas elas muito amadas

Todos são meus preferidos

A Sofia, a primogênita

É autentica e geniosa

ela tem a quem puxar

duas vovós bem corajosas

A segunda é a Yasmin

Pensa o quanto é estudiosa

Deve ter puxado a mim

Porém é muito ansiosa

A terceira se chama Esther

Deixa todos boquiaberta

Canta, dança, faz o que quer ,

Puxou aos pais, muito esperta.

A próxima é a pimentinha

Pietra veio para causar

Linda, autêntica e lourinha

Não se deixa enganar.

E pensa que parou aqui?

O último é o Israel

Para fechar veio o guri

Simpático, olhos e cabelos de mel.

Não há nada mais gratificante,

ganhar o carinho de netos

por eles eu quero viver

com meus bração sempre abertos.


 

 

Liberdade ainda que tarde


É maravilhoso amadurecer livre e serenamente,

Poder viver mais uma vez a experiência da liberdade.

Dar-me a oportunidade de conhecer-me única,

Capaz e absolutamente dona de minhas vontades.

Poder levantar-me tarde, comer a qualquer hora,

jogar baralho com amigos, caminhar, trabalhar,

dançar, namorar, ler, tomar sol, viajar

e pagar o preço daquilo que realmente desejo,

sem precisar consultar ninguém,

não me sentindo obrigada a entrar numa calça apertada

para parecer sexy,

ou comendo mal e pouco para perder peso

na tentativa de me enquadrar nos padrões impostos pelos outros.

Liberdade e capacidade são bens impagáveis!

Reconhecer que este momento é uma dádiva,

um presente, talvez um prêmio por tudo que já passei e superei,

só me faz ter motivos para ser feliz e grata.

 

"ENTRETANTOS"

Entretanto põe-se ele (nós, vós e todos os outros) a pensar!

Sobre a falência das crenças!

A falácia totalmente escancarada,

0 futuro indefinido,

O pensamento apodrecido:

Sobre: “A pátria amada”:

Não está mais tão adorada,

O lábaro não ostenta mais aquele florão,

O impávido não é mais aquele colosso

 E o cruzeiro não resplandece mais a nossa grandeza!

Contemplando o teu vulto sagrado,

Compreendemos o nosso dever!

Mas está difícil de entender e estender esse manto

E aos prantos acompanhamos a derrocada dos

Que, teoricamente nos representam

 e esse é o tom que a maioria lamenta!

Perde-se a fé, o interesse e no futuro próximo

e vem o esquecimento!

Eu lamento, que o vento que sopra hoje é de recolhimento,

 Será o valor do nosso pagamento

e com certeza de Arrependimento

da representatividade falida!

Só se vê maldade e apoioismo (essa palavra não existe, mas tem significado),

O egoísmo e o extrocismo (essa também não)!

Estamos literalmente pelados, deitados no sofá 

Vendo um cúmplice falar bobagens chamado #Faustão (antiBrasileiro)!

Em pleno domingão!

Torço muito, para que no amanhã possamos ser mais críticos,

Mais seletivos e mais objetivos, e torcer muito pra estarmos vivos;

Que possamos discutir, sem ouvir palavras sem sentido

que doam em nossos ouvidos,

de qualquer indivíduo,

que já esqueceu o que fez no dia anterior,

Isso sim é um terror!

Hoje diz que não está contente,

mas olhar o amanhã e olhar pra frente

deve dar dor nos dentes.

Certo ou errado, inocente ou culpado?!

Precisamos argumentar, por que ser mais um jumento é fácil!

É só falar, criticar, mas pra mudar é preciso agir, não fugir!

Pra mudar precisa conhecer o outro ser!

Criticar enobrece, ofender empobrece!

Difamar é falta de critério e esse é o mistério a ser desvendado!

Então, jogue o bobo aos lobos e fique quieto, alienado,

 puxando o saco só de um lado....

Esperar Cansa

 Espere, meu amor, espere

O mundo todo está a esperar,

Logo tudo isso passa,

 só não passa nossa espera.

Nosso beijo vai acontecer,

Nossos braços vão se abraçar,

Nosso mundo vai se confundir.

Espere, meu amor, espere.

vão se reencontrar duas crianças

Ninguém vai interferir,

Nem o frio, nem o medo,

Nem mesmo  a insegurança.

Espere, meu amor, espere.

O mundo pedindo calma,

Para ver o que vai sobrar .

Se o que sentimos é uma cisma,

Ou um sonho de criança.

EMA

Ela é anônima

Vive na sombra

Vida invisível

Medida protetiva

Para que nasceu?

Para quem vive?

Nesta vida torta

Cheia de medos

Ninguém se importa

Sempre escondida

Espreitando pelo buraco da porta

Ema... Apenas, EMA

Sem prosa,

Sem poema,

Na vigiada rotina,

Ema se esconde

Desde cedo, ainda menina,

Primeiro tapa do pai,

da mãe, dos irmãos,

então, com ele foge, sai

Em busca de paz

Novamente cai...

Ema apanha

Ema toma

Já não sonha...

Hematomas.

Sonho de padaria

 Te vejo no espelho, beijando minha nuca...

Te vejo no retrovisor seguindo meus passos...

Te vejo na caneta, desenhando palavras doces...

Te vejo nas conversas, soltando gargalhadas largas...

Te sinto no banho passando suas mãos...

Te sinto na leveza do edredom, acariciando-me as coxas...

Te sinto nos sonhos, nos ritmos tresloucados...

Te sinto o cheiro , quando acordo,

Impregnando meus seios,

meus cabelos e meu travesseiro...

Te sinto dentro de mim, invadindo minha solidão,

meus pensamentos pecaminosos, meu coração...

nada mais importa mais,

só este sintoma de grande paixão...

te quero feliz...

Desconstrução

 Sou feita de retalhos,

Sou fera magoada,

Cheia de atos falhos,

Sou  grosseiramente remendada,

Com um pouco de todos que convivi

Sou uma lesma, uma pamonha

Uma saracura, um bem te vi

Uma guerreira sem vergonha

Sou pé na terra, pé no barro

Pé na porta, pé no saco

Sou coração de melancia

Adocicada, avermelhada, suculenta

Sou movida por engrenagens extintas

Sou compreensiva, faminta, compulsiva

Mas me gosto tanto...

E por respeitar minha personalidade

ainda fortaleço meus defeitos

tenho uma cabeça cheia de sonhos

um corpo cheio de dores,

Um cérebro que me impulsiona

a nunca desistir de amores,

de casa limpa, comida boa

de um dia estar com mil ideia

no outro nenhuma,

 apenas atoa.

Desorientada

 Você é maravilhoso,

Pôs ópio em meu cérebro

Anticéptico em meu coração,

Mel em meus lábios,

Ácido lisérgico em meu sangue,

No meu corpo, explosão.

O mundo é precioso!

A felicidade ficou perto,

Primavera é a estação.

Os idiotas são tão sábios,

O que é ruim não me atinge.

Se for pecado, que seja bom!!

memorial

Eu sou Jovilde

1. Em minha infância eu estudei em uma escola municipal rural, no interior de Coronel Freitas, SC, onde minha primeira professora foi Zenaide, ela continua viva,  era longe de casa e, às vezes, meu pai me levava a  cavalo, outras ele me esperava numa ponte, sempre com medo que eu pudesse brincar de resgatar bebês no rio, de me afogar ou escurecer e eu ter medo de voltar...

2. Minha formação é de 4 anos de magistério em Salto do Lontra, colégio Ir. Maria Margarida e graduação em Letras Português, na FAFI/Palmas/Pr com Especialização em Teoria da Literatura na FAFIG/Guarapuava/Pr. Sempre trabalhei 40 horas, tanto no município como também no estado, já aposentei num padrão e agora espero a aposentadoria no outro. Fui professora de Educação Infantil, Ensino Fundamental, Médio, Formação de Docentes, curso preparatórios para vestibular Hoje, tenho em meus ex-alunos, pessoas que admiro, amigos e profissionais incríveis por todas as partes do Brasil.

3. Assim sendo, a minha vida foi uma grande superação, sim... nasci numa família pobre, simples e amorosa, tenho outros 4 irmãos de sangue e uma irmã do coração.

4. Já fui agricultora, empregada doméstica, diarista, babá, balconista de loja de roupas, vendedora de Avon, fiz crochê para vender, balconista em panificadora, boia fria, fiz tricô para pagar a pensão da dona Cinira em palmas...Dei meus pulos para não depender de meus pais.

5. Minha vida amorosa é muito vasta... Casei com meu segundo namorado, namorávamos por cartas durante 4 anos, tive com ele 2 filhos e separamos em 1996, hoje temos 5 netos maravilindos. Então chegou o segundo me trazendo muitas promessas de reconstrução de nossas almas machucadas e demos uma sacudida em nossas vidas fomos (in)felizes por 7 anos, mas ele acabou falecendo farto, de infarto fulminante. Deus o tem!

Aí eu resolvi ficar...ficar com quem se interessasse por mim e eu achasse interessante, pelo tempo que eu quisesse... Então conheci o Paulo e convivemos por 1 ano, viajamos, bebemos, dançamos e em fim, cansamos e ele partiu continuar a vida de caminhoneiro. Resolvi ensacar a viola e só jogar Canastra, fazer protestos, greves, lutas, e debochar da vida de um jeito matreiro, leve, sem neuras. Agora tenho um crush...para chamar de meu, até quando for bom para ambos...

6. A vida passa muito rápido, as relações modificam-se, os planos falham, a idade chega junto com rugas, celulites e estrias, temos que aceitar também os traumas.

Viver é bom Sebastião!! 

Daqui a pouco seremos apenas retratos amarelados em caixas puídas pelo tempo, ou nem isso.

 

 

 

Primeiro de ano

 Em um lugar sossegado

Longe das praias e  baladas

Perto do sossego

Comendo churrasco,

e sobremesa sorvete

tomando geladas

Adeus ano velho

Virada do ano

Um calor insano

Alguém querendo fazer amor,

--Mas fazer como,

Com tanto calor?

--Ligamos o ventilador,

Na velocidade maior...

--Não, não! Vai dar uma mergulhada...

Esquece um pouco o sexo

Com esta temperatura,

Ir pra cama não tem nexo.

terapêutica


Como é bom voltar aqui

Aqui me sinto muito forte

Necessária, importante

A natureza me entende

As pessoas me amam

Eu me amo...

Meus sentidos estão todos atentos,

Minha imaginação se fertiliza,

Minha coragem me constrange,

Minha inteligência me instiga,

Minha felicidade me assusta!

Como é bom estar aqui...

Onde ficou o mundo que me ofende?

Onde estão as pessoas que não me valorizam?

Estão lá fora...

fora de área...

fora de alcance...

Fora dos meus planos.

Como é bom sair daqui,

Voltar feliz a outro lugar

Tão bom quanto este aqui,

Outro lugar que também amo e me amam

Minha casa, meus filhos, meu lar...

bucolismo


Lá nos fundos da roça

Junto ao pé de guabiroba

Perto das garças e marrecos

Casinha simples, uma palhoça

De frente pra encruzilhada

Onde há um belo jardim

Atrás um grande pomar,

Açudes de águas límpidas

Que são cuidados por mim

Preservando fauna e flora

Não há luxo, nem ostentação

Mas não falta conforto e harmonia

Em tudo tem meu coração

Está convidado pra ir lá um dia.

bodas

 Bodas de Ouro é um evento tão raro e tão importante,

que dispensa qualquer tipo de conceituação.

Comemora-se uma vida a dois vivida

durante o longo período de cinquenta anos.

É um acontecimento único e singular na vida de um casal,

de sua família, dos seus filhos, netos e bisnetos

e de todos aqueles que lhes querem bem, ou mal.

 É, enfim, um momento que funde-se presente, passado e futuro.

Concluímos também que, mesmo sem dizer uma só palavra,

 quem está nos transmitindo uma mensagem grandiosa,

lá do alto dos seus cinquenta anos de casados,

são seu Cassildo e dona Ondina, aqui presentes.

Pai e mãe!

Nós estamos aqui para recordar uma trajetória de perseveranças

que foram marcados por desafios, lutas e encorajamentos.

Sabemos das dificuldades do início de tudo,

quando vocês dois, para construir uma vida juntos,

formar uma família como a nossa, que vocês tem tanto orgulho,

tiveram que abrir picadas a foice, falquejar tábuas e cepos,

serrar barrotes e construir taipas, lascar tabuinhas, fincar alicerces,

furar poços, plantar manualmente em covas,

capinar as erva daninhas, colher com as mãos e bater a colheita à manguás.

Tudo muito planejado, para dar um pouco de conforto a família

 que está representada pelos filhos que hoje aqui estão.

Mãe, você que junto de nosso pai, trabalhou de sol a sol,

na saúde, na doença, gerando e parindo os cindo filhos em casa,

sem pré-natal, sem  assistência, sem nenhuma garantia

de que você ou seu rebentos sobreviveriam,

Mas vocês, com suas intuições de bons cristãos souberam nos esperar e nos criar muito bem.

O sonho e desejo de construir uma família virou realidade.

Em pouco tempo tomou forma, um a um, os filhos foram aparecendo,

até surgir o quinto, a casa se encheu de vida e alegria,

dando-nos muito amor, ensinando-nos a ter fé, amar a Deus,

amar o próximo, e acima de tudo, respeitar e honrar pai e mãe.

Lembremo-nos dos domingos de missa na comunidade,

nós todos vestidos iguais, com roupas novas, costuradas por você, mãe,

então embarcávamos na carroça limpinha,

com 3 tábuas atravessadas que serviam de bancos,

e o pai nos levava até a igreja, onde aprendíamos lições de catecismo,

cânticos religiosos, tomávamos gasosa, comíamos bolo de festa.

Éramos crianças xucras, não largávamos das calças do pai nem as saias da mãe,

 pois tínhamos medo de foguetes,  “Veio do saco” e do “Negrinho do Pastoreio.”

E as histórias de assombração que mamãe nos contava em dias frios ou de chuva?

Em volta do fogão de lenha, onde o pai cortava batatas doces em rodelas

e sapecava na chapa quente..

O pai ia lá fora com frio e chuva buscar lenha e

não deixava o fogo apagar para não esfriar nossa imaginação

e embalar nossas cabeças cheias de minhocas e fantasmas.

A vida era simples, mas nunca nos faltou pão,

amor, carinho, alimentos, leite, lápis, congas, educação,

água da fonte, tanque dentro da sanga, banho de bica,

bergamotas, melado, açúcar mascavo...

São tantas memórias afetivas que povoam nossas lembranças da infância.

O pai trazia da roça, o pé de cana mais bonito que achava no canavial,

descascava os gomos e cortava em rodelas para os 5 filhos chupar,

ele nem dava conta...

Certa vez, voltou da cidade onde comprou uma maçã enorme,

chegando em casa, cortou em 5 pedaços e nos deu...

ficamos sabendo então, que era uma fruta cara, da Argentina...

por isso comprou só uma, para os filhos experimentar.

Foram gestos simples assim, de um pai generoso, que marcaram nossa infância...

Mãe... quantos sábados você se dedicou a fazer pães de trigo e de batata cará?

Que deveriam durar a semana toda,

mas que dávamos conta de comer tudo antes da quarta feira?

Então você fazia tudo de novo...ou improvisava com broas de milho?

E os Chico Balanceados que você fazia todos os domingos?

E quando os amigos da cidade resolviam ir passar o fim de semana

 no nosso sítio para brincar no meio das lavouras e comer pão com melado e nata?

Por que nenhuma outra mãe fazia comidas tão boas como você fazia...

Também tinha aquele sábado que você marcava para cortar nossos cabelos,

então chegava também todas as crianças da vizinhança,

pra você cortar os cabelos deles também...

Sim, por que ali na linha Biancati não tinha barbeiros

e nem mãe tão ousada, habilidosa e generosa como você...

Pai e mãe vocês dois formaram, durante a vossa existência,

uma referência forte para nossas vidas,

de maneira singular souberam nos criar e nos educar,

vigiando-nos de longe, pedindo a Deus que sempre nos protegesse  em nossas escolhas.

Pais, parabéns! Cinquenta anos! de luta, de fé, de otimismo, de coragem, de exemplo, de amor, de bondade.

Como Deus foi generoso com vocês! Mandando-lhes cinco filhos!

mais tarde quando estávamos todos criados

vocês ainda viveram a chegada da Vildinha, filha adotiva,

foi preciso recomeçar de novo, muito trabalho,

paciência, superação e força de vontade,

muitas horas de conversa, muitos conselhos e orientações.

Quando o desânimo e a desesperança bateram a vossa porta,

a fé os manteve firmes neste caminho traçado por Deus.

Hoje nós estamos todos aqui, filhos, noras, netos e bisnetos,

Comemorando o grande exemplo de determinação,

de luta e de perseverança que vocês nos ensinaram nestes anos todos.

O que somos hoje, devemos a vocês.

Os pais e mães que nos tornamos são frutos das lições de vida que vocês nos ensinaram.

Hoje também queremos pedir perdão:

Perdão pelo trabalho que damos a vocês,

Perdão pelas noites que não os deixamos dormir,

Perdão pelas vezes que os deixamos nervosos,

Perdão pelas vezes que os fizemos chorar,

Perdão pelas vezes que não conseguimos entendê-los,

Perdão pelas vezes que não compreendemos o quanto era difícil educar-nos,

Perdão e muito obrigado:

Obrigado pela vida que vocês nos deram,

Obrigado pelo amor,

Obrigado pelo carinho,

Obrigado pelo esforço,

Obrigado pela dedicação,

Obrigado pela formação religiosa e moral,

Obrigado por querer e exigir que estudássemos,

Obrigado por não deixar que trocássemos a ESCOLA pelo trabalho,

mesmo quando a necessidade apertava e precisava que ficássemos em casa os ajudando.

Obrigado porque até hoje, mesmo estando longe,

vocês continuam a se preocupar conosco.

Queremos manifestar do fundo dos nossos corações

o imenso orgulho de sermos seus filhos e o grande e eterno amor que sentimos,

enfim, dizer que os amamos muito.

Obrigado e parabéns, em nome de todos os irmãos, noras, netos e bisnetos,

em nome desta comunidade aqui reunida e em nome de todos aqui presentes.

Atributos


Duas pernas finas, depiladas

Sem varizes, bem definidas

Suportam coxas grossas,

Bem torneadas e exibidas,

Mais acima, as ilhargas,

rebolantes e comprimidas

que se movem timidamente

para parecerem desinibidas

um abdômen rotundo,

com seios fartos, fecundos

que já deram o que falar

desde pedreiros, professores,

alunos e fazendeiros

todos queriam neles tocar

Mas só quem os tocou mesmo

Foram meus filhos bebês

E outros que não vou revelar.

Áspera

 

Não me ensinaram a ser meiga

E tenho preguiça de aprender

Sou grossa, sou direta, sou irônica

Não faço tipo só para caber

O meu jeito de ser é escancarado

rio muito, gesticulo, falo alto

Melhor nem me criticar

Para eu não descer do salto

Não esperem de mim etiqueta

Não queiram me modificar

Fui forjada em ferro quente

Não é agora que vou mudar

E este seu dedo em riste

Não vai me amedrontar

Pegue a sua empáfia

E aponte para outro lugar.

Testando a vida

 

Por entre noites e dias sombrios

Sono sem sonhos, saudade sem abraço

Entre tardes ensolaradas e manhãs de frio

A vitamina D marcando o braço

A vida se esvaziando em tempos vazios

As estações do ano marcadas no calendário

As idades mudando sem festas de aniversário

As pessoas não são mais as mesmas

desde março de 2020

estão mãos velhas, mais gordas,

mais adultas, mais desconfiadas,

mais atentas, mais ouvintes...

o vírus derreteu a vida social

não há missas, nem velórios

nem Páscoa, nem Natal

são registrados mais óbitos do que nascimentos

mais depressão, mais ansiedade,

mais divórcios que casamentos

tantos carros de funerárias quanto ambulância

sem aulas presencias para enriquecer a infância

Eis o infinito enviando um recado

Usando uma doença virulenta

Cuide da mãe terra, da mãe água

da mãe natureza e dos semelhantes

pois tanta maldade o planeta não aguenta.