12/20/2008

Infância saudosa...

Nasci primogênita, de parto normal, filha de um casal saudável, jovem e humilde, na barranca do Rio Chapecó, na comunidade de Barra do Santo Antonio, município de Coronel Freitas, Sc, em pleno verão, num dia de Natal. Atrás de mim vieram mais quatro irmãos, nos quatro anos seguintes...Papai e mamãe eram fogo! A Igreja cobrava serviço...
Meus pais eram proprietários de duas colônias de terras dobradas, numas pirambeiras, recebidas como dote de meu nono paterno, se aquelas terras fossem planas, meu pai seria quase um fazendeiro, porém, não valiam nada, em meio a lugar nenhum, inçadas, cobertas de buva, cheias de pedras, onde se escondiam várias espécies de cobras venenosas, não produziam, não permitiam entrada de máquinas para a labuta, era tudo artesanal, braçal, morro acima, cesto nas costas ...
Eles trabalhavam duríssimo, em todas as estações, com bois, arados, enxadas, foicinhas, ancinhos, pilão, monjolo, engenho, manguás e outras ferramentas farquejadas a facão, em feriados, dias de chuva ou a noite, enquanto ouviam a rádio Guaíba de Porto Alegre, sob luz de lampião à querosene.

Nada se perdia, nada se desperdiçava, nem tempo, nem produtos, nem mão-de-obra infantil. E nós, desde muito crianças, já ajudávamos em todas as atividades. Sempre havia alguma tarefa que podíamos desenvolver, e se não fizéssemos, a vara de marmelo imaginária era a ameaça. Só ameaça. Por que éramos tão obedientes e adestrados que não ousávamos dizer não.

Os invernos daquele lugar, naquela época, eram rigorosos. Vivíamos de pés descalças, boleirinhos de pelúcia que mamãe costurava numa máquina à manivela, que passava de irmão para irmão...Que ficavam com as mangas esbranquiçadas de ranhos nasais, pois vivíamos resfriados, limpando a corisa nas mangas ou golas do que vestíamos.

Papai plantava de tudo, cana de açúcar, feijão, milho, mandioca, trigo, arroz, amendoim, pipoca, verduras, legumes. Também cultivava um enorme pomar cheio de laranjas, limas e bergamotas. Criavam galinhas caipiras e porcos comuns, sempre tínhamos leite, queijo, ovos, nata, manteiga e carnes cozidas, que era armazenadas em gordura animal e guardada em latas no porão da casa, para não estragar.

Quase não se comprava nada, era muito longe da vila, do mercado, da farmácia, do hospital.
No inverno, de preferência num dia bem frio, toda família se encarregava para cortar e limpar a cana, trazer perto do engenho movido a bois, moer, tirar garapa, fazer melado, açúcar, chemia, rapadura e puxa-puxa, em volta de fogo brando, dava muito trabalho mas também muito prazer...À noite estávamos enfastiados de doçura...Lambíamos as pás, os tachos, as colheres, secavam uma crosta doce em volta de nossas bocas risonhas, do tamanho de nossas caras e dormíamos assim, mortos, entupidos e felizes. Prontos para um novo doce dia....

Nos feriados matávamos um porco, para fazer salames, torresmos, banha, copa, murcilha, cudeguim, toucinho pendurado, miúdos assados, comíamos torresmo quente, até dar dor de barriga na gente, mas era bom.. Levávamos uma enjoada, que nem dávamos importância para tanta fartura.

De noite descascávamos e debulhávamos milho para levar ao moinho e fazer a farinha de polenta, ou socar canjica no pilão, também pilávamos o arroz para cozinhar vários dias...

Aos sábados fazíamos limpeza geral começando pela casa, que era tarefa de mamãe, nós cuidávamos do porão, paiol, chiqueiro, galinheiro, entrevarias, do pátio, do jardim, enquanto papai e mamãe cuidavam de fazer fornadas de pão e cucas para o consumo da semana, tudo à mão, ou melhor, a quatro mãos...Meu pai sempre foi muito bom, rígido, mas boníssimo. Nunca nos levantou a mão. Mamãe era mais impiedosa, nos surpreendia com algumas sovas e depois fazia salmoura, ralhando, chorando e acariciando... Teve vida dura. Uma mulher-macho.

Nos domingos, nós, crianças, perseguíamos a galinha mais gorda e poedeira que havia no terreiro, para que nosso pai a matasse para o caprichado almoço dominical, o melhor da semana. Lembro que papai puxava no pescoço da pobre e depois a pendurava numa árvore pelas pernas, quando ela estava bem mortinha punha numa panela grande e jogava muita água fervendo sobre a mesma e revirava para que todas as partes fossem atingidas pela fervura...(oh judiação), daí, íamos atrás do paiol arrancar as penas, só depois o pai ia para o tanque de água corrente, que vinha por uma bica feita de coqueiro, e carneava a penosa, enquanto nós observávamos o que havia de miúdos dentro dela: overa, moela, ovinhos, coração, fígado...Por que era nosso regalo, colocávamos cozinhar numa caneca velha e depois brigávamos para comer um tiquinho de cada parte...

Enquanto isso, mamãe fazia macarrão espichado na mesa e ao mesmo tempo fazia queijo, batia a manteiga, do soro quente retirava a poina, que a gente comia com pão e melado, fazia um Chico balanceado ou sagu de laranja, por que era domingo...

Lembro-me que certa vez, entre três a quatro anos, mamãe me incumbiu de lavar as louças do café e foi pra roça trabalhar, então, subi num banquinho e desemprenhei a tarefa. Porém, não lembrava onde havia guardado as louças...ficamos alguns dias sem saber, até que no sábado de tarde, mamãe foi assar um bolo e ao abrir a porta do forninho do fogão encontrou toda a louça espatifada pelo calor...eu, por excesso de imaginação, ou por preguiça, pus a louça secar no forninho...

Uma vez a cada dois meses, no domingo, vinha um padre da cidade rezar uma missa, junto vinha uma freira, que reunia a criançada e dava catecismo e ensinava cantar "mãezinha do céu"...era bom, a gente ia pra vila de carroça todos vestidos com roupas de volta-mundo, com a mesma estampa, feitos da mesma peça, compradas do mesmo mascate.


Eu sinto saudades de quando o pai ia trabalhar bem cedo, com serraação, e eu era encarregada de levar o seu café na roça enrolado numa toalha. Daí eu sentava perto dele e comia polenta sapecada na chapa do fogão a lenha, nata, queijo e salame com café de bule com pouco de leite, adoçado com açúcar de cana...aí meu Deus como era bom... eu e meus dois irmãos mais velhos disputávamos esta função.

Assim mesmo, apesar de tanta fartura, éramos muito pobres, não tínhamos calçados ou roupas novas, tudo era ganhado dos outros ou passado de irmão para irmão. Nos invernos rigorosos dormíamos todos juntos em cunas (cama que o pai fez com tábuas e ripas), com colchões que mamãe costurava com panos listados de algodão, cheios de palha desfiada que fazíamos em dias de chuva...quase todos fazíamos xixi na cama, daí, como castigo, tínhamos que trocar as palhas com freqüência, quem tinha maior incidência de enurese, rasgava mais palhas, (era eu), que vivia descalça pelos potreiros tocando as vaquinhas. Os cobertores, muito quentinhos, feitos também pela nossa mãe, cheios de penas de galinhas ou patos...Haja galinhas para encher cobertores...
Quando era muito frio ficávamos mais tempo na cama, brigando, nos apelidando e irritando a mãe...que se enchia e nos levava para perto do fogão, arrumava um banco, onde cabíamos todos, mexia no braseiro, retirava a gaveta de cinzas cobertas de brasinhas e punha no chão, próximo de nossos pés suspensos. Devíamos dividir aquele calor para aquecer todos nossos pés, doloridos, ressecados e vermelhos de frio.
Nunca esquecerei que numa ocasião, sendo a mais velha, briguei com os pés de meus irmãos e me desequilibrei, ficando em pé dentro da gaveta em brasas, abri um bocão e ao mesmo tempo sufoquei o choro, pois minha mãe disse que era castigo do "anjinho da guarda", uma vez que eu havia sido egoísta e queria o calor só para mim, prejudicando meus irmãos menores...

Levamos esta vida de penúria até eu completar 7 anos, daí meu pai vendeu as terras a troco de bananas e viemos embora para o Paraná tentar vida melhor. Com o dinheiro montou uma sociedade com um cunhado que não conhecia, daí sim, a nossa vida ficou morena...

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